Quando eu era pequena, os sons dessa casa eram outros.
Porta batendo no fim da tarde. Sacola no chão, o suspiro antes de ir pra cozinha.
Minha mãe chegava do trabalho e ia direto pro fogão. Três filhos, janta pra fazer, uniforme pra conferir.
Ela criou a gente sozinha fazendo faxina na casa dos outros. Sem marido, sem ajuda de ninguém.
As mãos inchavam todo dia. No outro dia ela levantava e fazia tudo de novo.
Eu era moleque e achava que era assim pra todo mundo. Que toda mãe dormia pouco e nunca reclamava.
Hoje os sons dessa casa são outros.
Tem um chiado que vem do quarto dela. Baixo, constante.
É o ar tentando passar. Qualquer esforço pequeno já tira o fôlego.
Subir um degrau. Tomar banho.
De noite ela dorme sentada, apoiada em travesseiro. Deitada sente que sufoca.
Ela precisa de um procedimento pra liberar a passagem do ar. Pelo público, não tem previsão.
Particular tá fora do que a gente consegue.
Eu nunca fiz nada artesanal na vida. Mas ficar parado vendo ela assim não dá.
Comecei a fazer sabonetes. Toda noite, depois do trabalho, sento na cozinha.
Derreto a base, escolho a essência, moldo um por um com calma.
De um lado, minhas mãos trabalhando. Do outro, a respiração dela.
Minha mãe passou sessenta e três anos resolvendo tudo sozinha. Nunca reclamou, nunca pediu nada.
Agora sou eu que sento e faço. Com o que eu tenho, do jeito que dá.
Cada sabonete é meu jeito de cuidar de volta. Tudo que entra vai direto pro que ela precisa.
Eles estão aqui embaixo. Feitos por mim, um por um com muito carinho, se fazer sentido para você, considere adquirir um.